Sítio furna dos caboclos
- Siará Santos
- 21 de jun. de 2022
- 3 min de leitura
Atualizado: 7 de jul. de 2022
A Furna dos caboclos é o sítio arqueológico mais conhecido do Sertão de Crateús. Está localizado no distrito de Montenebo, município de Crateús-CE. Assim como a casa de pedra (outro sítio arqueológico), esse sítio encontra-se no alto de uma serra, em um abrigo sob-rocha, cercado de caatinga arbórea, com arvores de grande e médio porte, próximo a duas nascentes. O abrigo já é conhecido pela comunidade de arqueólogos, sendo cadastrado no CNSA (Cadastro Nacional de Sítios Arqueológicos) Desde 1998. Apesar disso, nunca foi realizado nenhum projeto de pesquisa ou de conservação e, sequer existem monitoramento e controle dos visitantes. A notoriedade do sítio esta associada à lenda de um massacre sofrido pelos índios que habitavam o local em período de expansão das fazendas de gado. A lenda é contada pelos habitantes do município ainda hoje e foi belamente registrada por Melo(2009). Os fatos foram-lhe narrados por três senhores: Luis Mano, Mariano Lima de Sousa e Júlio Rodrigues Neres, todos moradores de Montenebo: Em síntese, assim foi narrado o Massacre na furna dos Caboclos: provavelmente, lá pelo inicio do século XIX, num ponto da Serra Grande ou Serra da Ibiapaba, à autora do hoje Monte Nebo, no município de Crateús-CE, na região centro-oeste do estado do Ceará, vivia um grupo de indígenas abrigados numa furna. Viviam da coleta de frutos e raízes, da pesca e da caça de mocós, cotias, queixadas, jacus e outros pequenos animais. Difícil sobrevivência, principalmente nas épocas de estiagem, quando recorriam na captura de gado que era criado à solta e que, por não terem a mesma noção de propriedade do homem “branco”, consideravam como animais de caça semelhantes aos outros existentes naquela região. O gado, no entanto, pertencia ao proprietário da fazenda bebida nova, cujo nome era José de Barros. Sentindo falta de reses e ovelhas o proprietário mandou investigar e descobriu que os animais estavam sendo caçados pelos índios. Informado por um morador da fazenda sobre a localização da furna, a existência de uma só entrada ou saída e a hora em que os índios dormiam, José de barros ordenou o massacre. Na noite marcada para o triste episodio, o morador, que com os índios se encontrava constantemente em caçadas pela mata e já tinha visitado a furna, deveria dormir no local com a missão de cortar as cordas dos arcos e dar o sinal para p ataque. Tudo aconteceu conforme o combinado. Morreram quase todos: homens, mulheres, velhos e crianças. (MELO, 2009, p.195) De tal massacre, diz ter sobrevivido apenas uma índia, com idade por volta de quatorze anos, que foi capturada e batizada com o nome de Jovelina. Casou-se com um vaqueiro, deixando descendentes dos quais o Sr. Mariano Lima de Sousa afirma ser um (MELO 2009). É interessante reproduzir também a fala do mesmo senhor, contida no mesmo artigo, quando indagado sobre a quantidade de índios massacrados no incidente: “Aí eu num sei não. Sei que índio era muito... Em mil novecentos e cinquenta... um padre... ele veio par nós ir lá, reparar tudo, eu pensava até que ele ia fazer uma celebração, rezar alguma coisa, num sei o que é... aí, mas ele num ia, ele ia como uma pessoa curiosa, num é? Que ele chegou lá mandou foi nós cavar pra ver se achava alguma joia, alguma coisa que os índio tinha deixado... E nós cavemo...nós fizemo uma ruma de osso que dava mais que um reboque de trator hoje.” (MELO, 2009, p.196) É possível encontrar na localidade pequenas variações dessa mesma lenda, mas no geral, o massacre, os motivos que o levaram a ocorrer, assim como a historia da dissidência advinda da única sobrevivente, se mantêm constantes. As variações contadas não devem evidentemente servir de argumentos para negar a existência do fato. No entanto, há outros indícios que apontam para que a Furna dos Caboclos tenha sido na realidade um local de enterramentos, utilizado ao longo de vários anos. Sempre que cemitérios desse tipo são encontrados, quase que imediatamente surge uma lenda em volta dele criada pelas populações locais numa tentativa de explicar tão curioso achado. Apesar da ampla divulgação da lenda, entender o que realmente aconteceu na Furna dos Caboclos só será possível quando estudos arqueológicos aprofundado forem realizados no local. Texto retirado do livro: PEGADAS NO SERTÃO. Autoria: Lucineide Marques, Bruna Gomes Brito e Karlo David Alves Sabóia. Publicação: 2009 Fotografia: Créditos na imagem.





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